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Mesmo com Lionel Messi, a defesa do título da Argentina no Mundial enfrenta sérias dúvidas

Para um atual campeão do mundo, a Argentina inicia o caminho rumo a 2026 numa posição invulgarmente incerta.

Os resultados continuam sólidos no papel. As exibições, no entanto, contam uma história mais complexa.

A equipa de Lionel Scaloni já não domina os adversários com a mesma autoridade que definiu a sua campanha no Qatar. Em vez disso, parece uma equipa presa entre duas eras: ainda dependente das suas forças do passado, mas ainda não totalmente reconstruída para o que vem a seguir.

A ilusão de controlo

A campanha de qualificação da Argentina sugere domínio: líder da tabela da CONMEBOL, resultados consistentes e Lionel Messi como melhor marcador.

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Mas esse sucesso superficial esconde uma realidade mais irregular.

As derrotas frente ao Uruguai e ao Paraguai, juntamente com um empate frustrante contra a Colômbia, expuseram uma equipa que pode ser desestabilizada quando pressionada com intensidade. Mesmo nas vitórias, a Argentina tem frequentemente dificuldade em impor o ritmo ou manter uma pressão ofensiva consistente.

Esta já não é a mesma equipa que controlava os jogos em 2022; é uma equipa que reage cada vez mais em vez de impor o seu jogo.

Uma equipa em transição

Parte do problema é estrutural.

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O núcleo que conquistou o Mundial está a envelhecer, enquanto a nova geração ainda procura afirmar-se. Como anteriormente reportado pela GOAL, o triunfo no Qatar foi construído sobre uma combinação rara de experiência, talento emergente e crença coletiva.

Esse equilíbrio está agora a mudar.

Jogadores mais jovens como Nico Paz trazem criatividade e potencial, mas ainda não estão preparados para assumir papéis decisivos. Ao mesmo tempo, figuras estabelecidas já não atuam ao mais alto nível, deixando lacunas tanto em termos de energia como de liderança.

O resultado é uma equipa que parece ligeiramente desconexa: não está em declínio evidente, mas já não é totalmente coesa.

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Messi: essencial, mas já não inesgotável

Tudo continua a girar em torno de Messi, o que permanece tanto a maior vantagem da Argentina como o seu principal dilema.

Aos 37 anos, continua capaz de produzir momentos que mudam jogos instantaneamente. No entanto, esperar que replique o rendimento físico e criativo de 2022 ao longo de um torneio mais longo e exigente é irrealista.

Scaloni reconheceu essa incerteza, afirmando: "Depende dele, de como se sente mentalmente e da sua condição física."

Mais preocupante ainda é o que acontece sem ele.

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Nos jogos em que Messi esteve ausente, a estrutura ofensiva da Argentina tem frequentemente carecido de clareza e criatividade. Não existe um sucessor evidente capaz de ligar o jogo, controlar o ritmo e produzir ações decisivas da mesma forma.

Essa dependência é agora uma vulnerabilidade estratégica.

Preparação sem pressão

O calendário recente da Argentina pouco fez para resolver estas preocupações.

Uma Finalíssima de alto perfil contra a Espanha, que poderia ter servido como verdadeiro teste, foi cancelada, forçando a equipa a disputar uma série de amigáveis de baixa intensidade. Segundo a GOAL, complicações de calendário levaram a Argentina a enfrentar adversários significativamente mais fracos.

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O impacto tem sido visível em campo.

Após uma exibição dececionante, Emiliano Martínez admitiu: "Foi um dos piores amigáveis que jogámos. Faltaram-nos intensidade, jogo e velocidade." Scaloni concordou com essa avaliação, admitindo: "A equipa não fez um bom jogo."

Sem testes significativos, a Argentina corre o risco de entrar no Mundial sem uma compreensão clara do seu verdadeiro nível.

Fragilidade na defesa

A solidez defensiva outrora um dos pilares do sucesso argentino também começa a apresentar falhas.

A experiência de Nicolás Otamendi continua valiosa, mas as suas limitações são cada vez mais expostas contra ataques mais rápidos e dinâmicos. A inconsistência de Cristian Romero ao nível de clubes estendeu-se à seleção, enquanto as lesões têm prejudicado a continuidade na linha defensiva.

Até Martínez, tantas vezes decisivo em momentos cruciais, tem mostrado sinais de vulnerabilidade.

Individualmente, estes problemas são geríveis. Em conjunto, apontam para uma defesa que já não transmite a mesma confiança.

Um nível de concorrência mais elevado

O desafio da Argentina é agravado pela evolução dos seus rivais.

Espanha e França, em particular, combinam clareza tática com profundidade em todas as posições. Ao contrário da Argentina, não estão numa fase de transição estão a aproximar-se do seu auge.

Esse contraste é importante.

Há quatro anos, a Argentina encontrou o momento certo. Agora, ainda está à procura dele.

O tempo e as respostas estão a esgotar-se

Nada disto exclui a Argentina. O futebol de torneios continua a premiar experiência, resiliência e momentos de brilhantismo individual qualidades que a equipa possui.

Mas a margem de erro é mais reduzida do que antes.

A menos que Scaloni consiga rapidamente restaurar o equilíbrio, definir papéis e reduzir a dependência de Messi, a Argentina corre o risco de chegar ao Mundial como candidata apenas no nome, e não pelo seu nível.

E, se isso acontecer, a defesa do título pode não colapsar de forma dramática pode simplesmente desaparecer.

Fonte: GOAL