Tênis

Um Grand Slam na carreira e uma nova era: por que Carlos Alcaraz se sente diferente

A vitória de Carlos Alcaraz no Australian Open completou um Grand Slam de carreira e o colocou em um dos grupos mais exclusivos do tênis. Além disso, chegou de forma incomumente precoce, reforçando a sensação de que o tênis masculino já está profundamente inserido em uma mudança geracional.

Por mais de uma década, o esporte girou em torno de Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. Alcaraz não é visto tanto como o substituto deles, mas como a sua consequência: um jogador formado à sombra desses ícones e agora capaz de vencê-los nos maiores palcos.

Ainda assim, ele rejeita a formalidade.

“Não gosto de ser chamado de Carlos”, disse em 2022.
“Sinceramente, Carlos me parece sério demais, como se eu tivesse feito algo errado. Gosto de Carlitos ou Charlie.”

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Essa preferência o acompanhou à medida que as expectativas cresceram.

Temperamento e talento

Segundo reportagens da BBC, Alcaraz não foi um juvenil fácil de administrar. Seu primeiro treinador, Kiko Navarro, lembrava-se de uma criança talentosa cujas emoções frequentemente transbordavam.

“Quando ele era criança, quebrava muitas raquetes, e eu tinha de levá-lo chorando para o hotel ou para casa”, disse Navarro em 2024. Mais tarde, Alcaraz descreveu a si mesmo como “um mau perdedor”.

O que o manteve com os pés no chão foi a proximidade, não o distanciamento. O tênis fazia parte da vida cotidiana em Múrcia. Como contou à Vogue em 2023, seu tio-avô construiu o clube local, seu pai trabalhava lá e todos os irmãos jogavam. Seu irmão mais velho, Álvaro, ainda aquece com ele nas quadras de treino e corta seu cabelo entre os torneios.

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Descoberto cedo

O agente da IMG, Albert Molina, notou Alcaraz pela primeira vez aos 11 anos, em um torneio Futures em Múrcia.

“Já era possível ver seu espírito vencedor, sua coragem e ousadia”, disse Molina ao site da ATP Tour em 2021.

Mais tarde, Molina o apresentou a Juan Carlos Ferrero, ex-número um do mundo e campeão de Roland Garros em 2003. Ferrero relembrou sua primeira impressão à BBC Radio 5 Live: “Vi algo diferente”.

Ferrero resistiu à tentação de simplificar o jogo de Alcaraz. Onde outros treinadores talvez priorizassem o controle, Ferrero incentivou a liberdade, acreditando que, naquele estágio, a confiança era mais importante do que a cautela.

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“Sempre tento jogar um tênis feliz”, escreveu Alcaraz no Players Voice da TNT em 2023.

Ascensão rápida, jogo solto

Alcaraz chegou ao circuito da ATP aos 16 anos e avançou rapidamente. Reuters e BBC acompanharam sua trajetória de adolescente desconhecido a campeão de Grand Slam, culminando no título do US Open de 2022 e na liderança do ranking mundial.

As mesmas características que impulsionaram sua ascensão também atraíram críticas. Deixadinhas em momentos delicados, subidas repentinas à rede e tentativas de golpes vencedores de baixo percentual empolgavam o público, mas inquietavam os críticos, especialmente quando as partidas se tornavam mais apertadas.

O ex-número um do mundo Andre Agassi captou bem essa mistura ao comentar para a BBC em Wimbledon:
“É como se Alcaraz tivesse o toque de [Roger] Federer, a cobertura de quadra de Novak e as rotações de Nadal.”

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Lidando com a pressão em público

Nem todos os passos foram adiante. Como relatou a BBC, decepções olímpicas, derrotas inesperadas e frustrações visíveis interromperam seu embalo. Alcaraz nunca tentou esconder esses momentos, mesmo quando as câmeras permaneciam focadas nele.

O que se manteve constante foi quem o cerca. Membros da família ocupam seu box. Profissionais de longa data permanecem por perto. Mesmo após a separação de Ferrero como treinador, no fim de 2025, o núcleo interno permaneceu praticamente intacto.

Em Melbourne, após uma vitória noturna em uma fase inicial do torneio, Alcaraz permaneceu em quadra assinando bolas de tênis gigantes e cumprimentando fãs bem depois da meia-noite — uma pequena cena, mas que ele repetiu em vários Grand Slams.

Em seu documentário da Netflix, explicou como mede o sucesso.

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“Quero me sentar à mesa com o Big Three”, disse.
“Mas, pelo que vivi, escolheria a felicidade em vez de um sucesso enorme.
Porque a felicidade já é sucesso.”

Em um momento em que os recordes chegam mais rápido do que a reflexão, essa visão talvez seja o sinal mais claro de quem Carlitos pretende continuar sendo.

Fontes: BBC, Reuters, Vogue, ATP Tour, TNT, Netflix