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O problema dos comprimidos para dormir no futebol uma adição oculta

Quando a recuperação se transforma em dependência

De acordo com The Athletic e o jornalista Tom Burrows, os distúrbios do sono são comuns no futebol moderno. Jogos noturnos, viagens frequentes e a exigência permanente de alto rendimento dificultam que muitos jogadores consigam descansar adequadamente após competir.

Neste contexto, os comprimidos para dormir surgem como uma resposta rápida. O que começa como um apoio temporário após uma lesão ou um período intenso pode transformar se gradualmente num hábito difícil de controlar.

O caminho de Omar Bogle para a adição

Omar Bogle, avançado do Crewe Alexandra, contou ao The Athletic que os seus problemas começaram após sofrer uma fratura nas costas durante a pré época de 2024. As dores impediram no de dormir e a medicação pareceu, inicialmente, uma solução eficaz.

“Tive um período de seis meses em que tudo ficou completamente fora de controlo, o meu consumo era exagerado”, afirmou Bogle, recordando apagões e conversas das quais não se lembrava no dia seguinte.

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Com o tempo, os medicamentos deixaram de produzir o efeito esperado. As doses aumentaram e as consequências começaram a afetar todas as áreas da sua vida.

“Chega a um ponto em que já não se trata de dormir, mas da sensação que isso provoca”, explicou. “Ficamos eufóricos e acabamos por nos tornar dependentes dessa sensação”.

Uma luta mantida longe dos holofotes

Segundo Bogle, ninguém à sua volta tinha consciência da dimensão do seu consumo. Relatou que tomava grandes quantidades de benzodiazepinas e zopiclona, muitas vezes sem supervisão médica.

“Nunca disse a ninguém que estava a tomar 18 ou 19 comprimidos por noite”, disse. “Vivia numa espécie de irrealidade”.

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A dependência afetou a sua vida familiar, alterou o seu comportamento e comprometeu seriamente a sua condição física. As lesões tornaram se frequentes, a recuperação insuficiente e o rendimento caiu ao ponto de temer o fim da carreira aos 31 anos.

Um padrão presente no futebol profissional

Segundo o The Athletic, o caso de Bogle não é isolado. Vários jogadores atuais e antigos falaram publicamente sobre experiências semelhantes, entre eles Jonjo Shelvey, Darron Gibson, Christian Norgaard e Dele Alli.

O especialista em sono James Wilson afirmou ao The Athletic que o uso regular de comprimidos para dormir é comum em muitos clubes. O antigo defesa do Northampton Town Ryan Cresswell descreveu o problema como generalizado e disse ter atingido o fundo do poço durante a sua própria dependência.

Porque os futebolistas são especialmente vulneráveis

Os especialistas ouvidos pelo The Athletic apontaram o calendário congestionado, as viagens internacionais e os jogos noturnos como fatores centrais. Geoff Scott, antigo responsável médico do Tottenham Hotspur, explicou que muitos jogadores têm dificuldade em desligar mentalmente após as partidas.

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Os comprimidos podem parecer uma solução simples, alertou, mas podem prejudicar a recuperação e aumentar o risco de lesões.

A especialista em sono e recuperação Anna West disse ao The Athletic que a educação deve ter prioridade sobre a medicação. Segundo ela, os jogadores precisam de aprender a lidar com o mau sono sem desenvolver dependência de fármacos.

Um aviso baseado na experiência

Após completar um período de reabilitação, Bogle regressou à competição pelo Crewe Alexandra. A partir da sua experiência pessoal, deixou uma mensagem clara para outros jogadores.

“É preciso ter cuidado com o quão potentes são e com a facilidade com que se pode ficar dependente”, afirmou.

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A sua história, documentada pelo The Athletic, evidencia um problema estrutural do futebol moderno, mais ligado às exigências do sistema do que a falhas individuais.


Sources: The Athletic, investigação de Tom Burrows

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