O corte de cabelo Cascão que remodelou a Copa do Mundo de 2002 de Ronaldo
As Copas do Mundo são lembradas tanto pelas imagens quanto pelos gols. Os cachos de Diego Maradona em 1986. A cabeça raspada de Zinedine Zidane em 1998. Em 2002, o triunfo do Brasil ficou associado a algo muito menos heroico: o corte de cabelo meio raspado de Ronaldo Nazário estranho, alvo de piadas e impossível de ignorar.
O que começou como uma brincadeira rapidamente ganhou significado. Quebrou a tensão, desviou o foco e acabou moldando um dos retornos mais improváveis da história do futebol.
Uma carreira já vivida duas vezes
Quando o Brasil chegou ao Japão e à Coreia do Sul, a história de Ronaldo parecia longa demais para um jogador de 25 anos. Ele havia surgido com força no Cruzeiro e no PSV, antes de deslumbrar a Europa no Barcelona com uma combinação de velocidade e potência que os defensores mal conseguiam compreender.
Na Inter de Milão, atingiu o auge físico e depois o perdeu. Graves lesões no joelho entre 1999 e 2000 interromperam repetidamente sua carreira e deixaram algumas das imagens mais dolorosas da época. Quando o Brasil anunciou sua convocação para a Copa do Mundo de 2002, as dúvidas surgiram imediatamente.
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Como noticiou o GOAL na época, Ronaldo chegou ao torneio tendo completado pouquíssimos jogos inteiros nos dois anos anteriores. Sua convocação era uma aposta, ainda mais com Romário fora da lista.
Inglaterra, alívio e medo
A vitória do Brasil sobre a Inglaterra nas quartas de final deveria ter acalmado os nervos. Em vez disso, criou novos temores. Ronaldo sentiu dores na coxa durante a partida e foi substituído, já consciente do que aquilo poderia significar.
“Quero que você me deixe pronto para o próximo jogo. Quero ver se você é bom”, disse ao médico da seleção, José Luiz Runco, segundo imagens exibidas mais tarde em seu documentário no Globoplay.
Dado seu histórico, a preocupação era inevitável. Ronaldo sabia melhor do que ninguém o quão rápido um torneio ou uma carreira podia desmoronar.
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Confiança, risco e “meia perna”
Os exames médicos não apontaram ruptura muscular, mas a incerteza permaneceu. Enquanto os companheiros treinavam, Ronaldo passava os dias em tratamento.
“A medicina não é uma ciência exata. Cada caso é único”, disse Runco a O Globo. “Acredito que ele vai jogar, mas não posso garantir.”
O técnico Luiz Felipe Scolari aceitou o risco. “Se tiver meia perna, joga!”, afirmou, argumentando que a influência de Ronaldo ia muito além da condição física.
Um corte de cabelo que mudou a conversa
Na véspera da semifinal contra a Turquia, Ronaldo parecia mais relaxado. “Eu estava mais cansado que os outros, mas em dois ou três dias vou estar bem”, disse à emissora japonesa Nippon TV.
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Então veio o corte de cabelo.
“Eu sempre raspava a cabeça antes dos jogos”, explicou Ronaldo mais tarde. “Desta vez, deixei um pedaço.”
Scolari não gostou do momento. “Que corte de cabelo é esse?! Eu estava nervoso… estava muito irritado!”, relembrou no mesmo documentário. Ronaldo manteve a decisão. “Não posso decepcionar todas as criancinhas que copiaram”, disse, sorrindo.
O visual, mais tarde apelidado de Cascão, em referência a um personagem de quadrinhos brasileiro, se espalhou instantaneamente. Jornais, programas de TV e pátios de escola se fixaram nele. Anos depois, Ronaldo reconheceu que o corte teve um propósito prático. “Todo mundo só falava da minha lesão”, disse ao The Sun em 2017. “Quando cheguei ao treino com aquele corte, todo mundo parou de falar da lesão.”
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Dor, dúvida e genialidade
A semifinal em si ofereceu pouca tranquilidade. Ronaldo teve dificuldades, levando o comentarista Walter Casagrande a dizer na transmissão da Globo: “Hoje ele é um a menos.”
Então, por um breve momento, tudo se encaixou.
“Eu não podia chutar com o lado interno do pé, isso iria piorar a lesão”, explicou Ronaldo depois. “Então vi a chance e chutei com a ponta do pé. Perfeito.”
O Brasil avançou. A tensão diminuiu ainda que apenas um pouco.
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A imagem que ficou
A final contra a Alemanha completou a história. Ronaldo marcou dois gols, o Brasil conquistou seu quinto título mundial, e as dúvidas que o acompanharam por quatro anos finalmente desapareceram.
Após o torneio, os gols foram reprisados à exaustão. O corte de cabelo também. Ronaldo o manteve por meses, muito depois do apito final, mesmo enquanto companheiros e torcedores riam dele.
Não era estiloso nem planejado. Mas, para muitos brasileiros, tornou-se inseparável do Penta um lembrete de que a redenção nem sempre chega com a aparência que se espera.
Fontes: GOAL, O Globo, Globoplay, The Sun
