Liga saudita abalada pelo protesto de Cristiano Ronaldo
A ausência de Cristiano Ronaldo no recente jogo do campeonato do Al-Nassr não teve explicação oficial. Extraoficialmente, disse muito.
O que antes poderia ter sido encarado como mera gestão de elenco transformou-se, em vez disso, numa rara rutura pública dentro da Saudi Pro League, levantando questões desconfortáveis sobre equilíbrio competitivo, propriedade dos clubes e até que ponto a figura mais poderosa da liga exerce, de facto, a sua influência.
De acordo com informações do GOAL.com, Ronaldo recusou-se a atuar depois de se mostrar cada vez mais frustrado com a limitada atividade do Al-Nassr na janela de transferências de janeiro frustração essa agravada pelos acontecimentos noutras frentes da liga.
De declaração global a pressão interna
A decisão de Ronaldo de se juntar ao Al-Nassr no final de 2022 marcou um momento decisivo para o futebol saudita. A sua chegada ajudou a acelerar uma vaga de contratações vindas da Europa, incluindo Karim Benzema, Neymar e Roberto Firmino, com salários amplamente descritos à época como “transformadores de vidas”.
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A mensagem era clara: a Arábia Saudita pretendia abalar a ordem estabelecida do futebol. Sustentada por investimento estatal e vontade política, a Pro League parecia capaz de competir com a Europa não apenas financeiramente, mas também em termos simbólicos. Ronaldo tornou-se peça central desse projeto, atuando simultaneamente como estrela em campo e porta-voz global.
Depois de renovar contrato no verão passado, descartou as críticas à qualidade da liga. “Só as pessoas que nunca jogaram na Arábia Saudita, que não entendem nada de futebol, dizem que esta liga não está entre as cinco melhores [do mundo]”, afirmou. Ronaldo acrescentou que acreditava no projeto até 2034, quando a Arábia Saudita deverá receber a Copa do Mundo.
Essas declarações, reproduzidas por diversos meios internacionais na época, posicionaram-no como um participante comprometido a longo prazo, e não como uma contratação de curto prazo.
Gols, mas sem título
Individualmente, Ronaldo correspondeu. Marcou 91 gols em 95 partidas pelo Al-Nassr, mas o título da liga continuou fora de alcance. No início desta temporada, as expectativas aumentaram com as chegadas de João Félix e Kingsley Coman, formando um dos ataques mais reconhecíveis do futebol saudita.
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“Quando nós quatro estamos bem, somos imparáveis aqui na Arábia Saudita”, disse Félix em declarações publicadas no site oficial da liga.
Os resultados inicialmente confirmaram essa confiança. O Al-Nassr venceu os primeiros dez jogos do campeonato, mas uma queda de rendimento em janeiro revelou-se custosa. Três derrotas em dez dias transformaram uma vantagem mínima num atraso de sete pontos em relação ao Al-Hilal, intensificando a pressão dentro do clube.
O treinador Jorge Jesus reconheceu a situação de forma direta. “Haverá mudanças na equipa durante a janela de transferências de inverno”, afirmou, alertando ao mesmo tempo que as limitações orçamentais poderiam restringir reforços.
Um negócio que mudou o clima
A atuação do Al-Nassr em janeiro acabou por se resumir a reforços de profundidade de elenco, e não a contratações de impacto. O Al-Hilal, por sua vez, conseguiu a chegada de Benzema a custo zero, vindo do Al-Ittihad, apesar de o avançado ainda ter contrato em vigor.
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Segundo o GOAL.com e o jornalista especializado em transferências Fabrizio Romano, Benzema estava insatisfeito com a estrutura contratual proposta pelo Al-Ittihad e colocou-se fora das opções antes de lhe ser permitida a saída.
A transferência reacendeu o debate sobre a propriedade no futebol saudita. Al-Hilal, Al-Ittihad, Al-Nassr e Al-Ahli são todos controlados pelo Fundo de Investimento Público, uma estrutura que, embora legal, coloca concorrentes diretos sob o mesmo guarda-chuva de propriedade. Modelos semelhantes existem noutros contextos do futebol, mas raramente dentro da mesma disputa por um título nacional.
Pouco depois de confirmada a transferência de Benzema, surgiram relatos de que Ronaldo reagiu com irritação e se recusou a jogar o jogo seguinte do campeonato do Al-Nassr contra o Al-Riyadh.
Quando o controlo encontra a realidade
Apenas algumas semanas antes, Ronaldo havia adotado um tom conciliador numa entrevista ao Arab News. “É difícil competir com equipas como o Al-Hilal e o Al-Ittihad, mas ainda estamos lá, a pressionar e a lutar”, disse, sublinhando profissionalismo e paciência.
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A sua ausência subsequente mudou a conversa. O Al-Nassr venceu sem ele, mas a vitória foi quase secundária. Para uma liga que valorizou a unidade e o impulso, a dissidência visível da sua figura mais reconhecível foi um sinal de alerta.
A Pro League já começou a ajustar a sua estratégia, gastando de forma mais cautelosa e priorizando contratações mais jovens em detrimento de superestrelas envelhecidas. Ainda assim, Ronaldo, mesmo aos 40 anos, continua a ser o seu embaixador mais influente. Quando ele reage, chama a atenção não apenas para as queixas de um clube, mas para as dinâmicas de poder subjacentes da liga.
O futebol saudita propôs-se a perturbar o jogo global. Agora, enfrenta um desafio mais delicado: gerir a disrupção em casa.
Fontes: GOAL.com, Arab News
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