Foram realizadas mais de 167 000 detenções pelo Serviço de Imigração e Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) nas 11 cidades-sede norte-americanas do Campeonato do Mundo e nos seus arredores, no período que antecedeu o torneio, cerca de 10 000 das quais ocorreram num único período de cinco dias no final de junho, enquanto se disputavam jogos, segundo um relatório conjunto divulgado na terça-feira.
O documento de 50 páginas, intitulado «Lucro Acima das Pessoas: O Campeonato do Mundo Masculino da FIFA 2026», foi publicado pela Sport & Rights Alliance e pela Football Supporters Europe, com contributos da Amnistia Internacional, da Repórteres Sem Fronteiras e de outros membros da coligação.
«O Campeonato do Mundo de 2026 expôs como as prioridades e a direção definidas pela liderança da FIFA colocam o lucro acima das pessoas», afirmou Andrea Florence, diretora executiva da Sport & Rights Alliance.
O torneio, disputado no Canadá, no México e nos Estados Unidos entre 11 de junho e 19 de julho, foi o maior da história da competição, com 48 seleções e 104 jogos. O relatório defende que o acesso ao mesmo foi condicionado pelo estatuto económico, pela nacionalidade, pela situação migratória, pela deficiência, pela identidade de género e pelas circunstâncias políticas.
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As restrições de viagem dos Estados Unidos que afetaram cidadãos de mais de 39 países, aliadas ao que os autores descrevem como os preços de bilhetes mais altos da história do Campeonato do Mundo, mantiveram muitos adeptos do Sul Global fora dos estádios. No México, a polícia usou gás lacrimogéneo contra manifestantes junto aos recintos; no Canadá, as cidades-sede avançaram com a deslocação de pessoas sem-abrigo.
Adeptos deixados de fora dos estádios
Ronan Evain, diretor executivo da Football Supporters Europe, afirmou que os organizadores defraudaram o público de que o desporto depende.
«Os adeptos foram tratados como objetos a explorar e não como o coração do jogo», disse Evain.
Os adeptos com deficiência enfrentaram barreiras de acessibilidade que, segundo o relatório, violaram requisitos legais, incluindo a ausência de lugares gratuitos para acompanhantes. Mais de 65 000 pessoas tinham assinado uma petição da Amnistia Internacional a exigir uma ação da FIFA antes do jogo de abertura.
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Jogadores e jornalistas também afetados
Pelo menos oito jogadores participaram no torneio enquanto tinham processos de agressão sexual pendentes, refere o relatório, sem que a FIFA dispusesse de um quadro transparente de elegibilidade. Membros da seleção do Irão foram afetados por atrasos e recusas de vistos, e o árbitro somali Omar Artan foi barrado na fronteira dos Estados Unidos após um interrogatório de 11 horas.
Dois jornalistas foram detidos no México durante o torneio. A Repórteres Sem Fronteiras EUA, que integra a coligação responsável pelo relatório, centrou-se na forma como o organismo máximo da modalidade geriu o acesso da imprensa.
«A falta de clareza da FIFA quanto à acreditação de meios de comunicação, a coordenação com os processos de visto e a atitude displicente face aos briefings para a imprensa sublinharam o insucesso da FIFA em defender os direitos humanos», afirmou Clayton Weimers, diretor executivo da Repórteres Sem Fronteiras EUA.
Frank Conde Tangberg, consultor de políticas na Amnistia Internacional, também contribuiu para o relatório.
«A união e a alegria que vimos no relvado e nas bancadas estavam a um mundo de distância do medo e da divisão para além dos estádios», disse Tangberg.
O que os autores exigem da FIFA
A coligação exige condições vinculativas e aplicáveis em matéria de direitos humanos nos acordos de organização da FIFA para futuros torneios, bem como um quadro centrado nas vítimas que regule quais os atletas e dirigentes que podem competir quando existem alegações graves de má conduta pendentes.
Pretende também a reposição de um Conselho Consultivo de Direitos Humanos independente, de uma Comissão de Ética reformada e de um Fundo de Reparação permanente. As exigências são dirigidas diretamente aos candidatos nas eleições para a presidência da FIFA de 2027.
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