Abriu-se uma nova frente no caso do Manchester City. Rui Pinto, o hacker autodidata que fundou o Football Leaks há uma década e desencadeou a investigação da Premier League ao clube, deu a entender através d’The Guardian que está pronto a colaborar com as autoridades britânicas e a entregar mais documentos sobre o processo do City, em troca de garantias quanto à sua segurança.
A proposta surge na mesma semana em que uma comissão independente considerou o City culpado de 114 das 115 acusações relativas às épocas entre 2009-10 e 2017-18, concluindo que o clube tinha usado contratos comerciais «fictícios» para inflacionar receitas em mais de 900 milhões de libras e que tinha tentado «travar e dificultar» a investigação. O City recorreu, classificando a decisão de errada e invocando «claros erros materiais, de direito, de princípio e de facto». As sanções serão decididas numa audiência separada.
A influência de Pinto não é apenas reputacional. Segundo a reportagem do Guardian, continua a ter um conhecimento detalhado das empresas, dos documentos e das pessoas no centro do processo e poderá ter material que ficou por examinar numa primeira análise. Com 37 anos, já colaborou pontualmente com investigadores em França, na Alemanha e na Bélgica; o Reino Unido, caso aceite, juntar-se-á a essa lista.
«Uma situação que põe a minha vida em risco»
A oferta surge no momento em que o próprio Pinto perde a proteção de que beneficiava em Portugal desde agosto de 2020. A 30 de setembro, poucas horas depois do veredicto sobre o City, a comissão que gere o programa português de proteção de testemunhas informou-o de que estava a ser retirado do mesmo, com a sua cobertura policial a terminar a 10 de outubro. Foi agredido em Lisboa em abril.
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A resposta de Pinto, publicada nas redes sociais, não deixou margem para ambiguidades.
«A 30 de setembro de 2026, poucas horas depois do veredicto que oficialmente confirmou a culpa do Manchester City, a comissão responsável pelo programa de proteção de testemunhas de Portugal informou-me da sua decisão de pôr fim à minha participação no programa e de retirar a minha proteção policial, colocando-me assim conscientemente numa situação que põe a minha vida em risco.»
Afirmou que foi forçado a esconder-se.
«Perante estas circunstâncias, não tenho outra alternativa senão deslocar-me, nos próximos dias, para um local não revelado por tempo indeterminado, devido às múltiplas ameaças de morte que recebi e ao grave risco de uma tentativa de assassinato contra mim.»
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A sua equipa jurídica acusou o Estado português de «terrorismo de Estado» e apresentou recurso da decisão.
Do Football Leaks ao Etihad
Pinto, de 37 anos, é um hacker informático português natural dos arredores do Porto. Fundou o Football Leaks em 2015 sob o pseudónimo «John» e, entre 2016 e 2018, entregou mais de 70 milhões de documentos confidenciais a um consórcio de jornais de investigação europeus. Esses ficheiros tornaram-se a espinha dorsal das acusações da Premier League ao City, apresentadas pela primeira vez em fevereiro de 2023.
O seu próprio historial judicial é complexo. Recebeu uma pena suspensa de quatro anos em Portugal, em setembro de 2023, por crimes informáticos, e uma pena suspensa de seis meses em França, no mesmo ano, pela pirataria de emails de dirigentes do Paris Saint-Germain. Em abril, foi absolvido de 241 acusações num segundo julgamento em Portugal, resultado que os seus apoiantes apontam como uma reabilitação.
A pedir 3 milhões de euros ao público
Com o fim da proteção do Estado, Pinto virou-se para o público. Lançou uma campanha de angariação de fundos a pedir 3 milhões de euros para financiar a vida fora da cobertura da polícia portuguesa; até ao momento, reuniu cerca de 27 mil euros.
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«Por esta razão, acabei de lançar uma campanha no GoFundMe e peço o apoio de todos para me ajudar a sobreviver a esta situação grave criada pelo Estado português, que, como já afirmei, decidiu conscientemente colocar a minha vida em risco.»
O Governo britânico ainda não reagiu publicamente. O recurso do Manchester City foi apresentado na passada quinta-feira e a data da audiência sobre as sanções ainda está por marcar.
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