Archie Goodburn saiu das provas britânicas para os Jogos Olímpicos de Paris convencido de que precisava de nadar algumas décimas mais depressa.
Tinha falhado a qualificação, uma experiência dolorosa, mas conhecida por quase todos os atletas de elite. O próximo ciclo olímpico podia parecer uma oportunidade para corrigir o resultado.
Pouco depois, Goodburn descobriu que as dificuldades sentidas no treino não estavam relacionadas apenas com forma física ou pressão. Três tumores cresciam no seu cérebro.
Os médicos concluíram que não podiam ser removidos. O nadador teve de substituir o plano para os Jogos Olímpicos por decisões sobre tratamentos que afetariam o resto da vida. (bbc.co.uk)
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Os sintomas apareceram antes da qualificação
Goodburn tinha começado a sofrer episódios de fraqueza, dormência no lado esquerdo do corpo, náuseas e medo intenso. Por vezes, sentia que estava a perder o controlo da própria consciência.
O escocês continuou a treinar e competiu nas provas olímpicas em abril de 2024. Falhou a vaga para Paris por uma diferença muito pequena.
Uma ressonância magnética e exames posteriores identificaram três oligodendrogliomas. Trata-se de uma forma rara de tumor cerebral que, no seu caso, se tinha espalhado por áreas que impediam a cirurgia.
Como descrito numa reportagem de The Guardian, Goodburn passou rapidamente de candidato olímpico a paciente confrontado com a possibilidade de não chegar à meia-idade.
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Um novo medicamento adiou a quimioterapia
A quimioterapia e a radioterapia podiam ajudar a controlar a doença, mas também ameaçavam as capacidades físicas e cognitivas do nadador.
Goodburn recebeu acesso ao vorasidenib. O medicamento oral atua sobre mutações específicas e pode atrasar a progressão de determinados gliomas de baixo grau.
O tratamento não cura o cancro. Permitiu, contudo, adiar as intervenções mais agressivas e continuar a treinar enquanto os tumores eram acompanhados.
Segundo a orientação publicada pelo NICE, o medicamento passou a ser recomendado em abril de 2026 para determinados pacientes que cumprem os critérios clínicos e genéticos.
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O regresso terminou num recorde
Goodburn não se limitou a recuperar o nível anterior. Em fevereiro de 2026, nadou os 50 metros bruços em 27,12 segundos.
A marca estabeleceu um novo recorde da Escócia. Foi também o melhor tempo de toda a carreira do atleta.
O perfil oficial da Scottish Swimming apresenta o registo ao lado de um currículo que inclui o título britânico, medalhas europeias e pódios nos campeonatos mundiais e europeus de juniores.
A doença permanecia dentro do cérebro. No cronómetro, porém, Goodburn era mais rápido do que antes da descoberta.
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Terminou engenharia antes dos Jogos
O regresso à competição aconteceu enquanto Goodburn concluía um exigente percurso académico. Estudava engenharia química na Universidade de Edimburgo.
Pouco antes dos Jogos da Commonwealth, recebeu o diploma de mestrado integrado com classificação máxima. O nadador tinha conciliado sete anos de estudos, treino de elite e, mais recentemente, tratamento oncológico.
De acordo com a Universidade de Edimburgo, Goodburn integrou o programa de alto rendimento da instituição durante todo o curso.
A formação científica também influenciou a forma como aborda o cancro. Goodburn não fala apenas de coragem, mas de ensaios, mutações, financiamento e obstáculos que impedem novos medicamentos de chegar aos pacientes.
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Glasgow substituiu o sonho de Paris
Goodburn tinha assistido aos Jogos da Commonwealth de Glasgow em 2014. Em 2026, voltou ao mesmo ambiente como representante da Escócia.
Passou as eliminatórias e as meias-finais dos 50 metros bruços. Pela primeira vez, alcançou uma final dos Jogos depois de ter terminado em nono lugar em duas provas na edição de 2022.
Na final, nadou em 27,42 segundos e dividiu a sétima posição com o canadiano Oliver Dawson. Sam Williamson conquistou o ouro, Michael Houlie ficou com a prata e Adam Ramsay-Peaty recebeu o bronze. (swimswam.com)
Goodburn queria uma marca melhor. A frustração mostrou que o atleta não procurava apenas uma homenagem pela presença.
O objetivo ultrapassa os Jogos Olímpicos
A experiência transformou Goodburn num defensor público dos pacientes com tumores cerebrais. Participou numa campanha por maior financiamento, mais testes genéticos e melhor acesso a ensaios clínicos.
Mais de 109.000 pessoas assinaram uma petição discutida no Parlamento britânico. A iniciativa também pediu um responsável nacional com autoridade clara sobre a estratégia para o cancro cerebral.
Segundo o registo oficial do Parlamento, os tumores cerebrais continuam a ser a principal causa de morte por cancro entre crianças e adultos com menos de 40 anos no Reino Unido.
Goodburn ainda pode tentar chegar aos Jogos de Los Angeles em 2028. O seu maior objetivo, no entanto, consiste em garantir que os futuros atletas não dependam de uma única descoberta para ganhar mais tempo.
Nadou uma final, mas continua a correr contra o tempo
A história de Goodburn não termina com a frase de que ele derrotou o cancro. Ele não derrotou a doença, e nunca afirmou tê-lo feito.
Os tumores continuam inoperáveis. O medicamento pode atrasar o crescimento, mas não oferece uma cura definitiva.
Glasgow representou um marco, não uma conclusão. Permitiu-lhe nadar diante da família, competir com campeões olímpicos e alcançar o objetivo que parecia impossível em 2024.
Goodburn perdeu Paris por décimos. Dois anos depois, mostrou que o tempo mais importante da sua carreira já não se mede apenas no cronómetro.



