Piers Morgan voltou a colocar no centro das atenções um dos debates mais polémicos do desporto moderno ao questionar se uma categoria feminina protegida pode continuar a cumprir o seu objetivo original caso o sexo biológico deixe de ser um fator determinante para a elegibilidade.
Num vídeo do Instagram amplamente partilhado, a discussão parte de uma pergunta relativamente simples, mas com enormes consequências para o desporto internacional: por que razão existe uma categoria feminina separada?
Morgan argumenta que essa divisão foi criada porque diferenças fisiológicas entre homens e mulheres, especialmente depois da puberdade masculina, podem produzir diferenças significativas de força, velocidade, resistência e outras características relevantes para o rendimento desportivo. Na sua perspetiva, deixar de considerar o sexo biológico nas decisões de elegibilidade pode comprometer precisamente a proteção competitiva que justificou a criação da categoria feminina.
O que torna o argumento particularmente relevante neste momento é o facto de a questão já não estar confinada a debates televisivos ou políticos. Algumas das maiores entidades reguladoras do desporto mundial começaram a estabelecer regras muito mais claras.
O COI já realizou uma mudança histórica
Em março de 2026, o Comité Olímpico Internacional anunciou uma das alterações mais importantes dos últimos anos na sua política para a categoria feminina.
Ao abrigo da nova política de proteção da categoria feminina, a elegibilidade para provas femininas nos Jogos Olímpicos e noutros eventos do COI ficará, a partir de Los Angeles 2028, em princípio limitada a atletas biologicamente femininas.
A elegibilidade será inicialmente determinada através de um teste único ao gene SRY, utilizado para identificar a presença ou ausência de um marcador associado ao desenvolvimento sexual masculino. A política abrange modalidades individuais e coletivas, não será aplicada retroativamente e não regula automaticamente o desporto recreativo ou de base.
A decisão representa uma alteração considerável em relação ao modelo anterior do COI, que dava maior liberdade às federações internacionais para desenvolver critérios específicos para cada modalidade, considerando fatores como inclusão, direitos humanos e eventuais vantagens competitivas.
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O argumento central de Morgan surge, portanto, numa altura em que o próprio movimento olímpico já começou a redefinir os limites da competição feminina.
O atletismo avançou na mesma direção
A World Athletics introduziu o seu próprio sistema ainda antes.
A federação internacional implementou novas regras para a categoria feminina em 1 de setembro de 2025. As atletas que pretendam competir nessa categoria em determinadas provas de alto nível podem ser obrigadas a realizar uma única vez um teste ao gene SRY, através de uma zaragatoa bucal ou de uma amostra de sangue.
Na altura, o presidente da World Athletics, Sebastian Coe, afirmou que proteger e promover a integridade do desporto feminino estava no centro da decisão. Para a organização, a categoria feminina no desporto de elite representa uma classificação competitiva protegida e não pode ser definida exclusivamente através da identidade de género.
O sistema já foi aplicado em larga escala. Antes dos Campeonatos do Mundo de Tóquio de 2025, 1.015 atletas da categoria feminina, incluindo suplentes, realizaram o teste. Em 2026, a World Athletics continua a solicitar resultados em diferentes eventos, incluindo competições das World Athletics Series, provas da Diamond League e determinadas grandes corridas de estrada.
Os regulamentos incluem exceções e disposições específicas para algumas condições raras relacionadas com o desenvolvimento sexual. Ainda assim, a direção geral é inequívoca: o sexo biológico ocupa atualmente um lugar central na definição da categoria feminina no atletismo internacional.
O outro lado do debate continua relevante
Isso não significa que a discussão esteja encerrada.
Defensores de uma maior inclusão de atletas transgénero argumentam que regras gerais podem ignorar diferenças importantes entre indivíduos e entre modalidades. Sustentam que tratamentos hormonais, níveis de testosterona, exigências físicas específicas de cada desporto e circunstâncias individuais também podem ser utilizados para determinar a elegibilidade.
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Existem igualmente preocupações sobre a forma como sistemas de testes cada vez mais restritivos podem afetar atletas com diferenças no desenvolvimento sexual. Alguns críticos receiam ainda que essas políticas aumentem o escrutínio sobre o corpo e as características biológicas das próprias atletas.
A questão torna-se ainda mais complexa porque uma eventual vantagem física não tem o mesmo peso em todos os desportos. Características importantes no levantamento de peso, na natação ou nas provas de velocidade podem ser muito menos relevantes noutras disciplinas.
A divergência central, por isso, não se resume à questão de saber se atletas transgénero devem poder praticar desporto. O problema passa por determinar em que categoria devem competir, quais devem ser os critérios de acesso a uma categoria feminina protegida e se as organizações podem criar alternativas sem comprometer a inclusão ou a equidade competitiva.
Morgan tem insistido repetidamente no tema
Morgan transformou progressivamente a questão num tema recorrente dos seus debates sobre política e desporto.
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As discussões têm colocado frente a frente diferentes interpretações sobre as vantagens potencialmente associadas à puberdade masculina, o impacto dos tratamentos hormonais e a possibilidade de criar regras específicas para cada modalidade em vez de aplicar um único princípio a todo o desporto.
Figuras conhecidas do mundo desportivo também entraram no debate. A antiga número um mundial de ténis Martina Navratilova é há vários anos uma das vozes mais conhecidas a defender regras mais rigorosas baseadas no sexo no desporto feminino, enquanto outros atletas e organizações alertam para o risco de excluir completamente determinados atletas transgénero.
Uma discussão que durante anos foi tratada sobretudo como uma disputa política e cultural passou, assim, a fazer parte dos regulamentos, dos procedimentos médicos e das decisões de elegibilidade tomadas no desporto de elite.
O desporto feminino aproxima-se de uma nova realidade
É improvável que exista uma única solução capaz de satisfazer todas as partes.
Atletas transgénero devem ser tratados com dignidade e ter oportunidades significativas de participação no desporto. Ao mesmo tempo, as organizações desportivas precisam de ser capazes de explicar por que razão existem categorias competitivas protegidas e quais os critérios necessários para preservar o seu objetivo.
No topo do desporto internacional, contudo, a direção mudou de forma significativa.
Quando Los Angeles receber os Jogos Olímpicos de 2028, a categoria feminina do COI funcionará ao abrigo de uma nova política na qual o sexo biológico e um teste único ao gene SRY terão um papel central. A World Athletics já introduziu um sistema comparável e está a alargar progressivamente a sua implementação.
É isso que faz com que o mais recente argumento de Morgan seja mais do que simplesmente outra troca de palavras provocadora diante das câmaras.
A questão de saber se o sexo biológico deve determinar o acesso à competição feminina de elite já está a ser respondida por algumas das instituições mais poderosas do desporto mundial. E, cada vez mais, a resposta dessas instituições é afirmativa.



