Duas imagens desportivas contam uma história cruel
Uma fotografia mostrava o apartamento de um tenista ucraniano em chamas. Outra mostrava o melhor marcador da história da NHL, de pé atrás do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, num vídeo de campanha eleitoral do partido político que permitiu a Vladimir Putin manter-se no poder.
Estes dois acontecimentos não tinham qualquer ligação direta, mas o intervalo de tempo que os separava constituía um contraste marcante. A 12 de setembro, um míssil russo «Kalibr» destruiu a casa da família de Dayana Yastremska, em Odessa. Cinco dias depois, Alex Ovechkin, capitão dos Washington Capitals, explicou por que razão aceitou participar num anúncio eleitoral do partido «Rússia Unida», apoiado por Putin.
Yastremska publicou fotos do edifício destruído e contou que, entre os poucos objetos ainda reconhecíveis que restavam, havia uma toalha de Roland-Garros. «Uma parte do mundo do ténis sobreviveu a um míssil russo. A nossa casa, por outro lado, não teve essa sorte », escreveu ela, segundo «The Independent».
A ucraniana dirigiu-se também à WTA e à Federação Internacional de Ténis, afirmando que os destroços ilustravam claramente o que, na sua opinião, seria a «neutralidade» desportiva no campo.
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Ovechkin defende a sua decisão
Durante a conferência de imprensa dos Capitals, em Washington, Ovechkin falou sobre a sua participação no anúncio publicitário do partido «Rússia Unida». O vídeo da campanha mostrava-o, na véspera das eleições legislativas russas, atrás do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguéi Lavrov.
«Sou russo e apoio o meu país», afirmou Ovechkin aos jornalistas, segundo a Reuters.
Este homem de 41 anos afirmou que lhe tinham pedido para participar e que tinha aceitado sem hesitar. Além disso, tentou fazer a distinção entre o seu apoio à Rússia e a guerra na Ucrânia, acrescentando: «Sou a favor da paz e do amor».
Não há provas de que Ovechkin tenha aprovado expressamente um ataque específico com foguetes, nem de que tenha apoiado diretamente o assassinato de civis ucranianos. No entanto, os seus detratores afirmam que a sua participação num anúncio político a favor do partido no poder de Putin não pode ser considerada independentemente da invasão levada a cabo pelo governo.
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As eleições realizadas na Rússia entre 18 e 20 de setembro são as primeiras eleições legislativas do país desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O «Rússia Unida» manteve-se como a força política dominante ao longo da guerra e apoiou sistematicamente a política de Putin.
A relação política da qual ele não pode escapar
Ovechkin salientou várias vezes que era mais um desportista do que um político, mas as suas relações com Putin remontam a vários anos. Em 2017, fundou o movimento «Putin Team» com o objetivo de mobilizar o apoio do público a favor do presidente russo.
Após a invasão da Ucrânia, mostrou-se mais cauteloso, lançou um apelo à paz e continuou a referir-se a Putin como «o meu presidente». Além disso, na sua foto de perfil do Instagram, aparece sempre ao lado do chefe de Estado russo.
É por isso que este último anúncio voltou a suscitar dúvidas quanto à capacidade de Ovechkin de se distanciar de forma credível da política. Ele não se limitou a assistir a uma cerimónia oficial ou a ser fotografado ao lado de um representante do governo. Apareceu também, por sua própria vontade, em materiais de campanha eleitoral do partido no poder na Rússia, ao lado de Lavrov e da diretora editorial da RT, Margarita Simonyan, tal como relatado em pormenor pelo «The Guardian».
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Ovechkin confirmou que, no final da sua carreira na NHL, pretendia regressar definitivamente à Rússia. Continua a ser hoje um dos desportistas mais famosos da América do Norte, depois de ter batido, em 2025, o recorde histórico de golos de Wayne Gretzky na NHL.
Os Capitals defendem o seu capitão
Os Washington Capitals tentaram voltar a centrar a atenção no hóquei no gelo. Um porta-voz da equipa explicou que tinham entrado em contacto com Ovechkin este verão, enquanto ele vivia em Moscovo, e que tinham destacado a sua longa contribuição para a comunidade de Washington.
O clube acrescentou que se estava a concentrar na próxima época e na influência que Ovechkin continua a exercer no gelo. Esta declaração não satisfez de todo aqueles que consideram que a sua participação conferiu legitimidade desportiva ao sistema político de Putin.
O antigo guarda-redes da NHL, Dominik Hašek, foi um dos críticos mais veementes. Acusou Ovechkin e o antigo jogador Viacheslav Fetisov de terem decidido «apoiar oficialmente a guerra imperialista travada pela Rússia na Ucrânia», segundo a Reuters.
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O deputado republicano Joe Wilson também instou a NHL a rever as suas diretrizes relativas aos jogadores que aparecem em anúncios políticos em nome de governos estrangeiros. Até ao momento, a liga tem remetido as questões relativas a Ovechkin para os Capitals, enquanto a seleção nacional russa e os clubes russos continuam excluídos das competições internacionais de hóquei no gelo.
Os discursos pacíficos deparam-se com a realidade na Ucrânia
A posição de Ovechkin assenta numa distinção entre o apoio à Rússia e o apoio à sua guerra. Ele afirma que ama o seu país, que anseia pela paz e que não se intromete nas decisões políticas. Os seus detratores argumentam que essa distinção perde todo o sentido quando ele promove de bom grado o partido no poder, responsável por esta invasão.
Este debate já não se limita a um nível abstrato. Os desportistas ucranianos participam em competições enquanto mísseis caem perto das casas dos seus entes queridos, destruindo os seus lares e deixando-os na incerteza quanto ao destino das suas famílias.
Ovechkin não ordenou o ataque com foguetes contra o apartamento de Yastremska, nem defendeu esse ataque em particular. No entanto, enquanto a ucraniana se encontrava no meio dos escombros e questionava a neutralidade do mundo do desporto, um dos desportistas russos mais famosos decidiu participar numa campanha a favor do partido de Putin e afirmou posteriormente que continuava a apoiar o seu país.
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As suas palavras eram um apelo à paz. As imagens de Odessa mostravam a realidade à luz da qual essas palavras são avaliadas.



