Para os adeptos portugueses, Zinédine Zidane ocupa um lugar peculiar na história do futebol.
Foi adversário em algumas das derrotas mais dolorosas da seleção nacional. Marcou o golo de ouro que eliminou Portugal do Euro 2000 e voltou a decidir uma meia-final contra a equipa portuguesa no Mundial de 2006.
Ao mesmo tempo, partilhou o balneário do Real Madrid com Luís Figo e, posteriormente, treinou Cristiano Ronaldo e Pepe durante um dos períodos mais vitoriosos da história do clube espanhol.
Agora, Zidane é o novo selecionador de França.
Leia também: Toto Wolff toma decisão importante sobre uma possível chegada de Max Verstappen à Mercedes
A Federação Francesa de Futebol confirmou que o antigo número 10 assinou um contrato de quatro anos, válido até ao final do Mundial de 2030.
Zidane inicia oficialmente as funções em 1 de agosto de 2026 e sucede a Didier Deschamps. A estreia será realizada fora de casa contra a Turquia, em 25 de setembro, na Liga das Nações.
“Não existe nada maior do que a seleção francesa”, afirmou Zidane durante a apresentação.
Quem é Zinédine Zidane?
Zinédine Yazid Zidane nasceu em Marselha, a 23 de junho de 1972. Tinha 54 anos quando foi apresentado como selecionador francês.
Leia também: A entrevista de Messi em dezembro voltou a ser analisada em Buenos Aires e há uma frase que explica porquê
Cresceu no bairro de La Castellane, no norte da cidade, numa família de origem argelina.
Antes de se tornar uma estrela mundial, Zidane foi um jovem formado num ambiente popular, no qual a família, o trabalho e a disciplina assumiam uma importância fundamental.
A sua personalidade pública sempre refletiu parte dessa educação.
Fora do campo, Zidane era reservado e raramente procurava protagonismo. Dentro das quatro linhas, assumia o controlo. Pedia a bola nos momentos difíceis, ditava o ritmo e aceitava a responsabilidade quando os jogos precisavam de ser decididos.
Leia também: Guerra de Trump empurra F1 para a Malásia e volta a colocar Portimão em alerta
Como treinador, continuou a liderar de maneira semelhante. Não era necessário falar constantemente para que os jogadores compreendessem a sua autoridade.
Os primeiros passos em Cannes e Bordéus
Zidane começou a jogar em clubes locais de Marselha antes de ingressar na formação do Cannes.
Estreou-se no principal campeonato francês aos 17 anos. O talento era evidente, mas o jovem médio ainda precisava de se adaptar ao contacto físico e às exigências do futebol profissional.
Em 1992, transferiu-se para o Girondins de Bordeaux.
Leia também: Toto Wolff explode e chama engenheiros rivais de “Teletubbies”
Foi nesse clube que desenvolveu a capacidade de proteger a bola, eliminar adversários e descobrir linhas de passe que poucos jogadores conseguiam identificar.
Ao lado de Christophe Dugarry e Bixente Lizarazu, chegou à final da Taça UEFA de 1996. O Bordéus perdeu contra o Bayern de Munique, mas a campanha abriu as portas da elite europeia.
Como jogador profissional, Zidane representou Cannes, Bordéus, Juventus e Real Madrid. Pela seleção francesa realizou 108 jogos e marcou 31 golos.
A transformação em Itália
Zidane assinou pela Juventus em 1996.
Leia também: Tadej Pogacar, o mais jovem e rápido a conquistar cinco títulos do Tour de France
Naquele período, a Serie A reunia os melhores defesas, treinadores e estruturas táticas do futebol mundial. A técnica de Zidane já era extraordinária, mas em Turim aprendeu a importância do posicionamento, da disciplina e da regularidade.
Venceu o campeonato italiano em 1997 e 1998, bem como a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental.
Disputou ainda duas finais consecutivas da Liga dos Campeões.
Em 1998, depois do triunfo francês no Mundial, recebeu a Bola de Ouro.
A Juventus transformou um artista num competidor ainda mais completo.
O herói do primeiro Mundial francês
Zidane estreou-se pela seleção principal em agosto de 1994, num encontro contra a República Checa.
A França perdia por 2-0 quando ele entrou. Zidane marcou duas vezes e garantiu o empate.
Quatro anos depois, tornou-se uma figura eterna do futebol francês.
Na final do Mundial de 1998, a França enfrentou o Brasil no Stade de France. Zidane marcou dois golos de cabeça antes do intervalo e os anfitriões venceram por 3-0.
Foi o primeiro título mundial da história do país.
Após a vitória, o rosto de Zidane foi projetado no Arco do Triunfo, em Paris. O filho de uma família argelina, criado nos bairros do norte de Marselha, tornava-se o símbolo mais poderoso de uma seleção multicultural.
A noite que Portugal nunca esqueceu
A ligação de Zidane ao futebol português tornou-se particularmente intensa no Euro 2000.
Portugal possuía uma geração extraordinária, liderada por jogadores como Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, João Pinto e Nuno Gomes.
Na meia-final, em Bruxelas, Nuno Gomes colocou Portugal na frente. Thierry Henry empatou na segunda parte e o encontro seguiu para prolongamento.
A três minutos do fim, Abel Xavier foi castigado por mão na bola após um remate de Sylvain Wiltord.
Zidane assumiu a responsabilidade.
O médio bateu Vítor Baía e marcou o golo de ouro que terminou imediatamente a partida. A França venceu por 2-1 e avançou para a final.
Para Portugal, o lance continua associado à frustração e às longas discussões sobre a decisão da equipa de arbitragem.
Para Zidane, foi um dos momentos mais importantes da carreira.
A nova desilusão portuguesa em 2006
Seis anos mais tarde, Portugal e França voltaram a encontrar-se numa meia-final.
Desta vez, o palco era o Mundial de 2006, na Alemanha.
A seleção de Luiz Felipe Scolari tinha eliminado Países Baixos e Inglaterra. Cristiano Ronaldo, então com 21 anos, já era uma das figuras da equipa.
A França venceu por 1-0.
Mais uma vez, Zidane marcou o golo decisivo de penálti.
Foi particularmente simbólico porque Zidane enfrentava jogadores com os quais possuía fortes ligações ao Real Madrid.
Luís Figo tinha sido seu companheiro no clube espanhol, fazendo parte da equipa dos Galácticos e da conquista europeia de 2002.
Cristiano Ronaldo, que ainda jogava no Manchester United, acabaria por se tornar a principal estrela da equipa treinada por Zidane em Madrid.
O génio do Real Madrid
O Real Madrid contratou Zidane à Juventus em 2001 por um valor recorde na época.
Florentino Pérez procurava reunir os melhores jogadores do planeta. Zidane juntou-se a Raúl, Roberto Carlos e Luís Figo. Mais tarde chegaram Ronaldo e David Beckham.
Na primeira temporada, Zidane conquistou o único grande troféu que ainda faltava na sua carreira.
Na final da Liga dos Campeões de 2002 contra o Bayer Leverkusen, recebeu um passe alto de Roberto Carlos e rematou de primeira com o pé esquerdo.
A bola entrou no ângulo superior.
O Real Madrid venceu por 2-1 e conquistou a sua nona Taça dos Campeões Europeus.
Zidane realizou 227 jogos oficiais e marcou 49 golos pelo clube. Venceu a Liga dos Campeões, a Liga espanhola, a Taça Intercontinental, a Supertaça Europeia e duas Supertaças de Espanha.
O final dramático em Berlim
Zidane abandonou inicialmente a seleção em 2004, mas regressou no ano seguinte para ajudar a França a qualificar-se para o Mundial de 2006.
No torneio, eliminou Espanha, Brasil e Portugal antes de encontrar a Itália na final.
Zidane marcou um penálti à Panenka logo no início do encontro.
Durante o prolongamento, porém, respondeu a Marco Materazzi com uma cabeçada no peito e foi expulso.
A França perdeu no desempate por penáltis.
Apesar da expulsão, Zidane foi eleito o melhor jogador do Mundial.
O episódio tornou-se uma parte incontornável da sua imagem: um jogador de enorme elegância, mas também um competidor com um temperamento intenso.
De adjunto a treinador principal
Após terminar a carreira, Zidane manteve-se ligado ao Real Madrid.
Trabalhou como conselheiro, diretor desportivo e adjunto de Carlo Ancelotti. Em 2014, fez parte da equipa técnica que conquistou a Décima.
Depois de uma passagem pelo Real Madrid Castilla, foi promovido à equipa principal em janeiro de 2016.
Cinco meses depois, venceu a Liga dos Campeões.
O Real Madrid repetiu a conquista em 2017 e 2018. Zidane tornou-se o primeiro treinador a vencer três edições consecutivas da competição no formato moderno.
No total, conquistou onze troféus como treinador principal do clube: três Ligas dos Campeões, duas Ligas espanholas, dois Mundiais de Clubes, duas Supertaças Europeias e duas Supertaças de Espanha.
A relação com Cristiano Ronaldo
Para o público português, a relação entre Zidane e Cristiano Ronaldo é uma das partes mais relevantes da sua carreira como treinador.
Ronaldo era a maior estrela da equipa e o principal marcador. Sob o comando de Zidane, continuou a produzir números extraordinários e desempenhou um papel decisivo nas três conquistas europeias consecutivas.
Nos primeiros dois anos de Zidane no comando, Ronaldo marcou 84 golos e foi o melhor marcador da sua era como treinador.
O momento mais simbólico ocorreu na final de 2016, contra o Atlético de Madrid.
Pepe começou o encontro no centro da defesa. Cristiano Ronaldo converteu o penálti decisivo e entregou a Zidane a primeira Liga dos Campeões como treinador principal.
A gestão de Ronaldo mostrou uma das maiores qualidades de Zidane.
Ele sabia que uma estrela dessa dimensão precisava de liberdade, confiança e proteção, mas também de um contexto coletivo que lhe permitisse decidir os jogos mais importantes.
Pepe também fez parte do primeiro triunfo
Pepe foi igualmente importante na primeira fase de Zidane como treinador.
O defesa português integrou a equipa que conquistou a Liga dos Campeões em 2016 e fez parte de uma geração que marcou a história recente do Real Madrid.
A relação de Zidane com o futebol português não se limita, portanto, aos confrontos com a seleção.
Ele jogou com Figo e treinou Ronaldo e Pepe.
Conhece de perto a mentalidade de alguns dos maiores futebolistas portugueses das últimas décadas.
Que tipo de treinador é Zidane?
Zidane não é habitualmente descrito como um treinador preso a um único sistema.
No Real Madrid, utilizou o 4-3-3, o 4-4-2 e uma estrutura com losango no meio-campo.
A sua prioridade era encontrar a melhor organização para os jogadores disponíveis.
Durante a apresentação como selecionador, afirmou que o estilo da França terá semelhanças com o seu Real Madrid. Explicou que procura o golo e gosta de futebol ofensivo, mas sublinhou a necessidade de equilíbrio.
A sua maior qualidade poderá voltar a ser a gestão humana.
A seleção francesa possui muitas estrelas e poucas vagas. Zidane terá de manter os jogadores envolvidos, mesmo quando não forem titulares.
É respeitado pelos jogadores franceses?
Zidane chega ao balneário francês com uma autoridade difícil de igualar.
Foi campeão do mundo pela seleção e ganhou tudo ao serviço do Real Madrid, tanto como jogador como treinador.
O exemplo mais claro de admiração vem de Kylian Mbappé.
Em 2025, depois de marcar três golos pelo Real Madrid contra o Manchester City, Mbappé declarou: “Zizou é um ídolo para mim. Ele representa muito.”
Essa relação será central no novo ciclo.
Mbappé é o capitão e o maior nome da equipa. Zidane terá de lhe dar liberdade ofensiva, mas também exigir liderança e responsabilidade.
O respeito inicial será enorme.
Contudo, Zidane ainda terá de demonstrar que consegue tomar decisões difíceis sem dividir o grupo.
Quase cinco anos à espera
Zidane não treinava desde que deixou o Real Madrid em maio de 2021.
A longa ausência representa uma das maiores dúvidas em torno da sua nomeação.
Durante esse período, recebeu ligações a vários clubes, mas não aceitou nenhuma proposta.
Na apresentação, revelou que tinha esperado precisamente por esta oportunidade.
“Passei os últimos quatro ou cinco anos à espera deste dia”, afirmou.
Zidane poderia ter escolhido outro projeto. Preferiu aguardar pelo final da era Deschamps.
A função de selecionador pode ajustar-se especialmente bem às suas qualidades. Existe menos tempo para treinar sistemas complexos e uma necessidade maior de liderança, flexibilidade e comunicação direta.
O caminho pode terminar em Portugal
O contrato de Zidane com a França estende-se até ao Mundial de 2030.
A competição será organizada principalmente por Portugal, Espanha e Marrocos, com três jogos comemorativos na América do Sul.
Isso significa que o maior teste da carreira de Zidane como selecionador poderá decorrer em território português.
O homem que eliminou Portugal no Euro 2000 e no Mundial 2006 poderá regressar ao país à frente de uma das seleções favoritas ao título mundial.
Também existe a possibilidade de um novo confronto entre Portugal e França.
Seria mais um capítulo numa história que começou com Figo, Rui Costa e o penálti de ouro em Bruxelas, continuou com Cristiano Ronaldo na Alemanha e ganhou uma nova dimensão durante os anos de domínio europeu do Real Madrid.
Zidane já causou sofrimento ao futebol português.
Também ajudou alguns dos seus maiores jogadores a alcançar o topo.
Em 2030, Portugal poderá voltar a ser o palco de um dos momentos mais importantes da sua vida.



