Sharmila Dhankar já tinha vivido várias vidas antes de se tornar atleta.
Tinha crescido com as consequências da poliomielite, casado aos 19 anos, criado duas filhas, sobrevivido a uma relação violenta e regressado à casa dos pais sem qualquer segurança económica.
Em 2018, conseguiu um emprego temporário como cobradora nos autocarros do estado de Haryana. Tornou-se a primeira mulher a desempenhar a função, mas perdeu o posto apenas 18 dias depois, quando terminou a greve que tinha criado a vaga.
O desporto surgiu pouco depois. Aos 40 anos, Dhankar lançou o peso a 9,81 metros em Glasgow e conquistou o primeiro ouro indiano de sempre no para-atletismo dos Jogos da Commonwealth.
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A poliomielite chegou aos dois anos
Uma febre alta mudou a infância de Dhankar quando tinha apenas dois anos. A poliomielite afetou-lhe a perna esquerda, mas não a impediu de obter alguns dos melhores resultados escolares da sua turma.
A família vivia com poucos recursos. A mãe, Santosh, era cega desde o nascimento e tinha quatro filhos para sustentar.
Sem dinheiro para continuar a educação da jovem, os pais aceitaram um casamento quando Dhankar tinha 19 anos.
A relação tornou-se violenta. Depois do nascimento da segunda filha, a situação piorou até ao dia de 2012 em que o primeiro marido a expulsou de casa com as crianças.
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Recomeçar não trouxe segurança imediata
Os pais levaram Dhankar e as duas netas de volta para a aldeia da família. Algumas pessoas próximas acusaram-na de destruir o casamento, mas a mãe recusou permitir o regresso à relação abusiva.
Dhankar procurou trabalho e tentou alcançar independência financeira. A oportunidade nos transportes públicos parecia representar um começo importante.
Conforme contado por Nitin Sharma no The Indian Express, a contratação fazia parte de uma resposta temporária a uma greve dos trabalhadores rodoviários. Quando o protesto terminou, o emprego desapareceu.
Ela voltou a perder a fonte de rendimento, mas não regressou à vida anterior.
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Um segundo marido apresentou-lhe o desporto
Em 2018, Dhankar casou com Ajit Singh. A principal condição apresentada foi que ele apoiasse também as duas filhas.
Ajit começou por incentivá-la a praticar kabaddi. Depois levou-a ao estádio de Rewari, onde conheceu o antigo atleta paralímpico Tek Chand e começou a aprender as técnicas de lançamento.
Dhankar entrou em competição por volta dos 33 anos. O marido deixou o emprego e contraiu empréstimos para financiar a preparação da atleta e das filhas.
A mãe vendeu parte das terras da família. Todos investiram numa carreira iniciada tarde e sem garantia de retorno.
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A evolução aconteceu rapidamente
Dhankar conquistou um título nacional pouco depois de começar. Mais tarde representou a Índia nos Jogos da Commonwealth de Birmingham e terminou em quarto lugar nos Jogos Asiáticos de Para-atletismo.
Antes de viajar para Glasgow, venceu o lançamento do peso e conquistou bronze no disco no Fazza International Para Athletics Championship.
A edição de 2026 dos Jogos da Commonwealth apresentou o maior programa de para-atletismo da história da competição. Foram realizadas 16 provas integradas no calendário principal do atletismo.
Dhankar aproveitou a oportunidade com a melhor marca da temporada: 9,81 metros e medalha de ouro na classe F57.
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A Índia colocou duas mulheres no pódio
A final terminou com outro momento dramático. Shilpa K. Shyla, também da Índia, tinha ficado inicialmente na quarta posição.
A delegação indiana protestou contra um lançamento atribuído à nigeriana Eucharia Iyiazi. Depois da revisão, a tentativa foi considerada inválida e Shyla subiu para o terceiro lugar.
Dhankar e Shyla celebraram juntas um raro pódio duplo. O resultado encerrou uma espera indiana de 20 anos por uma medalha no para-atletismo dos Jogos da Commonwealth.
Narendra Modi classificou o ouro como um momento histórico e elogiou a marca alcançada em Glasgow.
O verdadeiro objetivo está dentro da família
Dhankar pretende agora ganhar os Jogos Asiáticos. Apesar dos 40 anos, o treinador acredita que a atleta ainda poderá competir durante mais quatro ou cinco temporadas.
O sonho mais importante envolve as filhas que estiveram ao seu lado desde o primeiro casamento.
Uma treina o lançamento do dardo. A outra dedica-se ao salto em comprimento.
A antiga cobradora de autocarro quer que as três se qualifiquem um dia para a mesma competição internacional.
A carreira começou tarde. A história da família no desporto pode estar apenas a começar.



