Sándor Csányi tem assento no Conselho da FIFA como um dos oito vice-presidentes do organismo. Na terça-feira, enviou a Gianni Infantino uma carta que o acusa, por escrito, de «graves lacunas no discernimento profissional, nos padrões éticos e na liderança» e retira-lhe o apoio, segundo uma cópia a que a Bloomberg teve acesso. Csányi qualificou o despedimento de Kevin Lamour como «a gota de água».
A formulação é mais dura do que tudo o que foi dito publicamente contra Infantino até agora. Federações nacionais ameaçaram boicotar. Um patrocinador de topo deu a entender que o quer ver sair. Este caso é diferente: um homem que se senta ao lado de Infantino na sala de reuniões, presidente da Federação Húngara de Futebol (MLSZ) e eleito para a vice-presidência da FIFA pelos seus pares da UEFA, a dizer-lhe por escrito que a sua ética e o seu discernimento estão a falhar.
O ponto de ignição foi a confirmação da FIFA, a 17 de agosto, de que Lamour, diretor de operações do organismo, iria sair. Lamour tinha chegado vindo da UEFA em novembro de 2024 e, a 31 de julho, veio a público com a acusação de que Infantino estava a induzir em erro os funcionários sobre um plano para vender participações no Mundial e noutras competições a investidores privados.
«É o projeto de uma só pessoa», declarou Lamour aos jornalistas. «Este projeto não só não pode avançar, como chegou agora o momento de os líderes políticos do futebol se colocarem as perguntas certas e tomarem as decisões certas.»
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Disse na altura que esperava ser afastado por ter falado.
«Se isso significar que perco o meu emprego, que assim seja. Compreenderei e respeitarei essa decisão. Pelo menos vou dormir bem esta noite», disse Lamour à Associated Press.
O plano que Infantino teve de abandonar
A polémica centra-se na FIFA Forward Enterprise, ou FFE, uma subsidiária comercial anunciada a 28 de julho que teria captado cerca de 20 mil milhões de dólares através da venda de participações minoritárias nos direitos das competições da FIFA a investidores privados, com o JPMorgan a aconselhar e a Thrive Eternal, de Joshua Kushner, envolvida na operação. Foi abandonada em 72 horas. A FIFA afirmou que a proposta «não iria avançar» após a oposição da UEFA, da Concacaf e da AFC.
«O projeto criou divisões de tal natureza que, independentemente do nível de apoio, deixaram de servir o interesse do objetivo», afirmou o organismo dirigente.
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Infantino pediu depois desculpa. Esse recuo está agora no centro do argumento de Csányi, segundo o relato da Bloomberg sobre o teor da carta: despedir Lamour por se opor a um plano que o próprio Infantino já renegou é aquilo que o húngaro aponta como prova de discernimento falhado.
Porque é que um vice-presidente é diferente de uma federação
A eleição presidencial da FIFA funciona com base num membro, um voto. Cada uma das 211 associações nacionais tem um voto de igual peso no Congresso da FIFA, e as confederações não decidem o voto das suas associações-membro. Críticas públicas da liderança da UEFA ou da Concacaf não são a mesma coisa que um bloco contra Infantino e, no papel, a carta de Csányi é uma defeção isolada.
Na prática, é outra coisa. Os vice-presidentes têm assento no Conselho da FIFA, o órgão que assegura a governação do quotidiano entre congressos. A presidente da federação norueguesa, Lise Klaveness, classificou o afastamento de Lamour como «inaceitável» e descreveu-o como «gestão pelo medo». A carta de Csányi pega nessa atmosfera e coloca-a por escrito a partir do próprio Conselho da FIFA.
Infantino continua sem qualquer candidato declarado contra si e pode apontar para o apoio público da CAF. Terá agora de dirigir o Conselho da FIFA com um vice-presidente que lhe disse, por escrito, que já não apoia a sua liderança.
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