Trump acusa um juiz de ter “destruído” o sistema
Donald Trump apareceu na Sala Oval com uma bola de futebol americano nas mãos e reduziu uma das batalhas jurídicas mais complexas do desporto dos Estados Unidos a algumas frases explosivas. O presidente afirmou que um juiz tinha tomado uma “decisão terrível” e “destruído o desporto universitário”, antes de alertar que algumas pessoas estavam agora a abandonar a NFL para jogar por universidades. Nas palavras de Trump, o movimento deveria acontecer precisamente no sentido contrário.
As declarações foram feitas num vídeo divulgado a 5 de setembro e noticiado pelo pequeno meio norte-americano MEAWW. Trump não identificou o juiz nem explicou com precisão a que processo se referia. O momento da intervenção, porém, aponta para os litígios na Louisiana, onde tribunais concederam proteção temporária a jogadores com experiência profissional recente que contestam as restrições de elegibilidade impostas pela NCAA.
O resultado é uma possibilidade verdadeiramente invulgar. Jogadores que assinaram contratos profissionais, participaram em campos de treino da NFL ou entraram em jogos de pré-temporada poderiam terminar esses acordos, devolver o dinheiro recebido e regressar a um plantel universitário. Para Trump, isso demonstra que a fronteira entre o desporto universitário e o profissional está a desaparecer. Para os atletas, é uma consequência de a NCAA ter alterado o seu modelo de elegibilidade depois de eles já terem tomado decisões de carreira ao abrigo das regras anteriores.
O desacordo deixou de estar limitado à NCAA, a alguns jogadores ou à Southeastern Conference. Trump colocou a autoridade do Governo federal ao serviço de uma tentativa de restabelecer limites mais rígidos sobre elegibilidade, transferências entre universidades e remuneração de atletas. A sua intervenção transforma uma disputa sobre alguns lugares em plantéis numa questão de poder muito maior: deverá o presidente poder utilizar as relações financeiras federais para fazer cumprir as regras do desporto universitário?
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Não são estrelas estabelecidas da NFL a regressar ao campus
A descrição de Trump cria a imagem de jogadores consagrados da NFL a abandonarem carreiras profissionais para dominarem atletas universitários mais jovens. Os processos reais são mais complexos. Muitos dos jogadores envolvidos não foram selecionados no draft e apenas passaram brevemente por organizações da NFL, participando em campos de treino ou jogos de pré-temporada antes de serem dispensados sem conseguirem estabelecer uma carreira profissional duradoura.
A disputa surgiu depois de a NCAA introduzir um modelo baseado na idade que permite cinco épocas de competição dentro de um período de cinco anos. Os jogadores que iniciaram o percurso universitário em 2022 argumentaram que tinham sido injustamente excluídos dos benefícios do novo sistema. Alguns já tinham procurado oportunidades profissionais porque, de acordo com as regras que conheciam naquele momento, a sua elegibilidade universitária parecia esgotada.
Um juiz da Louisiana concedeu inicialmente proteção temporária a um grupo que incluía 16 jogadores de futebol americano. Segundo o relato detalhado da Front Office Sports sobre a decisão, a ordem impedia a NCAA de excluir os autores da ação apenas por terem assinado contratos profissionais ou com agentes, ou por terem participado num evento profissional. Antes de voltarem ao nível universitário, teriam de terminar esses contratos e devolver qualquer valor recebido.
A decisão continua a representar um desafio radical à separação tradicional entre o desporto universitário e o profissional, mas não corresponde à migração inversa em massa sugerida por Trump. Não se trata de veteranos a regressarem depois de vários anos na NFL. São sobretudo jogadores presos entre um regulamento da NCAA em mudança, oportunidades profissionais de curta duração e decisões judiciais que questionam se a entidade aplicou os seus limites de elegibilidade de forma justa.
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LSU tornou-se o centro da rebelião
A controvérsia intensificou-se quando a Louisiana State University procurou integrar antigos signatários de contratos profissionais no seu plantel de futebol americano. Dae’Quan Wright e Zxavian Harris, que tinham passado por organizações da NFL depois de jogarem anteriormente no nível universitário, tornaram-se exemplos proeminentes de atletas à procura de uma época adicional. A SEC opôs-se ao regresso e aprovou possíveis sanções contra universidades da conferência que utilizassem jogadores com contratos profissionais assinados.
A 3 de setembro, o juiz William Jorden, de East Baton Rouge Parish, emitiu uma providência cautelar que reforçou a posição dos jogadores. A decisão abriu caminho para que a LSU incluísse antigos jogadores da NFL no plantel, embora a elegibilidade para cada partida continuasse incerta. Como a Associated Press explicou ao noticiar o processo, a SEC considera que permitir o regresso de antigos profissionais prejudicaria o equilíbrio competitivo e a identidade tradicional do desporto universitário.
O argumento jurídico dos atletas é diferente. Eles sustentam que não devem perder o acesso a uma quinta época universitária apenas porque a NCAA não alargou a nova estrutura de elegibilidade à sua geração no momento adequado. Alguns testemunharam que não teriam assinado acordos profissionais se soubessem que uma temporada adicional numa universidade poderia vir a ficar disponível.
A LSU acabou por deixar Wright e Harris fora da equipa no jogo de abertura da época enquanto a disputa jurídica continuava. Essa cautela demonstra quão pouca segurança a providência realmente criou. Um jogador pode obter proteção temporária de um tribunal estadual e continuar a enfrentar a oposição da NCAA, da conferência e de futuros adversários. As universidades arriscam-se a construir plantéis em torno de atletas cujo estatuto legal pode mudar durante a temporada.
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A verdadeira arma de Trump é o dinheiro federal
Trump já tinha intervindo antes do vídeo mais recente. A sua ordem executiva intitulada “Urgent National Action to Save College Sports” foi assinada a 3 de abril, tendo as principais disposições entrado em vigor a 1 de agosto. O texto procura estabelecer um limite de cinco anos de participação, impedir que profissionais regressem ao desporto universitário e permitir uma transferência com elegibilidade imediata, além de outra depois da conclusão de um curso de quatro anos.
O elemento mais controverso é o mecanismo de aplicação. De acordo com a ordem executiva integral publicada pela Casa Branca, as agências federais devem considerar se violações graves das regras aplicáveis ao desporto universitário afetam a aptidão de uma universidade para receber subsídios e contratos federais. O documento inclui especificamente normas relativas a elegibilidade, transferências, partilha de receitas e atividade financeira imprópria.
Isso cria uma forma de pressão que ultrapassa em muito uma sanção da NCAA ou a perda de elegibilidade de um atleta. As grandes universidades recebem dinheiro federal para investigação médica, projetos de defesa, programas científicos e numerosas atividades sem qualquer relação com as equipas de futebol americano. A ordem de Trump afirma que a saúde financeira dessas instituições é importante para o Governo federal e associa essa relação ao cumprimento das regras nacionais do desporto universitário.
A ordem não retira automaticamente financiamento federal sempre que um atleta efetua uma transferência não autorizada ou recebe um pagamento contestado. As agências têm de agir dentro da legislação existente, e o texto reconhece repetidamente esses limites jurídicos. Ainda assim, introduz a possibilidade de uma infração de governação desportiva passar a integrar uma avaliação federal sobre contratos e subsídios com um valor muito superior ao de qualquer castigo desportivo.
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Este é o ângulo mais importante e controverso da história. Trump não está apenas a apoiar o direito da NCAA de excluir antigos profissionais. Está a tentar ligar o cumprimento de regulamentos desportivos administrados por entidades privadas à enorme relação financeira entre o Governo federal e as universidades norte-americanas.
Os pagamentos aos atletas também estão na linha de fogo
A ordem vai além dos atletas que procuram regressar do profissionalismo. Exige medidas contra aquilo que a Casa Branca define como acordos fraudulentos relativos ao nome, imagem e semelhança dos jogadores, incluindo pagamentos acima do justo valor de mercado efetuados por coletivos ou organizações semelhantes. Patrocínios legítimos de terceiros continuam permitidos, mas pagamentos ligados à entrada ou permanência de um atleta numa determinada universidade podem ser tratados como remuneração disfarçada pela participação desportiva.
A Administração Trump argumenta que pagamentos sem limites e transferências constantes criaram uma corrida financeira insustentável. A Casa Branca diz que os grandes programas de futebol americano e basquetebol estão a empurrar as universidades para a dívida e a colocar em risco as modalidades femininas e olímpicas. De acordo com esse argumento, limites mais rígidos nos desportos mais rentáveis são necessários para proteger as centenas de milhares de atletas cujos programas não geram receitas comparáveis.
Os críticos veem uma luta diferente. Os tribunais têm ampliado repetidamente os direitos económicos e a liberdade de circulação dos atletas universitários depois de concluírem que as restrições da NCAA tinham ido longe demais. Trump está agora a apoiar as instituições, conferências e entidades reguladoras que procuram recuperar parte desse controlo. Limites apresentados como proteção para modalidades menores também podem reduzir a capacidade de cada atleta mudar de universidade, negociar pagamentos ou contestar decisões de elegibilidade.
A ordem também instrui o procurador-geral a apoiar contestações judiciais com mérito contra leis estaduais que entrem em conflito com as regras nacionais do desporto universitário. Em vez de aceitar o mosaico criado por diferentes estados e decisões judiciais, a Administração pretende um único sistema nacional. A questão jurídica ainda sem resposta é se o poder executivo pode impor essa uniformidade sem que o Congresso aprove nova legislação.
As pessoas afetadas não estavam na sala de Trump
A posição de Trump recebeu forte apoio de figuras importantes do desporto universitário, incluindo o presidente da NCAA, Charlie Baker, o antigo treinador do Alabama Nick Saban e comissários de conferências poderosas. Eles acolheram favoravelmente a atenção federal, a criação de normas nacionais e uma maior proteção para as modalidades femininas e olímpicas. Baker salientou, no entanto, que a estabilidade permanente continua a exigir legislação bipartidária aprovada pelo Congresso.
A composição de uma anterior mesa-redonda na Casa Branca revelou outro lado da controvérsia. Participaram dirigentes universitários, comissários de conferências, executivos de televisão, políticos e antigos treinadores de destaque, mas não esteve presente qualquer atleta universitário em atividade nem um representante formal de um coletivo NIL liderado por desportistas. As pessoas cujas transferências, receitas e condições de elegibilidade seriam restringidas não tiveram lugar direto à mesa.
Como noticiou o The Washington Post sobre essa reunião, Trump reconheceu que a intervenção planeada seria contestada nos tribunais. Também expressou o desejo de regressar ao sistema anterior, mesmo que isso implicasse forçar a questão através da justiça. Essa admissão torna especialmente revelador o seu ataque mais recente a um juiz não identificado: os tribunais não são um obstáculo inesperado ao plano, mas o palco onde Trump sempre soube que a batalha seria decidida.
O juiz não acabou com o desporto universitário, expôs a luta pelo seu controlo
A decisão da Louisiana não se aplica automaticamente a todos os antigos atletas profissionais, e o litígio ainda não terminou. Ela concede proteção temporária a autores específicos enquanto prossegue a disputa mais ampla sobre elegibilidade. A afirmação de Trump de que um único juiz destruiu o desporto universitário vai, portanto, muito além da atual posição jurídica.
O presidente tem razão num aspeto da controvérsia. A antiga fronteira entre o desporto universitário e o profissional tornou-se cada vez mais difícil de defender. Os atletas são pagos, representados por agentes, transferidos entre programas e tratados como ativos comerciais valiosos. As ordens judiciais que permitem o regresso de jogadores recentemente ligados à NFL tornam essa transformação impossível de ignorar.
A discussão mais profunda é sobre quem deve controlar o novo sistema. A NCAA quer autoridade sobre a elegibilidade, as conferências querem proteger o equilíbrio competitivo, os atletas querem mobilidade e remuneração, os legisladores estaduais procuram vantagens para as suas universidades e os políticos federais pretendem um enquadramento nacional único. Trump entrou agora nessa luta com a ameaça de escrutínio financeiro federal por trás da sua posição.
O vídeo de Trump faz a disputa parecer simples: um juiz destruiu o desporto universitário e o presidente pretende salvá-lo. A realidade é mais controversa. Trump está a perguntar se o Governo federal deve poder pressionar financeiramente as universidades para que cumpram regras desportivas que os tribunais e os atletas contestam ativamente. A resposta poderá determinar muito mais do que o eventual regresso a um campo universitário de alguns jogadores que não conseguiram estabelecer-se na NFL.



